EVENTOS TOXICOLÓGICOS EM SERVIÇO DE ATENDIMENTO MÓVEL DE URGÊNCIA (SAMU)
Intoxicação; Medicamentos; Psicotrópicos; Serviços Médicos de Emergência; Toxicovigilância.
Introdução: Os eventos toxicológicos constituem importante problema de saúde pública, com elevado impacto sobre a morbimortalidade e os serviços de saúde. Entre esses eventos, as intoxicações destacam-se pela elevada frequência e constituem agravos de notificação compulsória no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), que registrou 257.426 casos em 2025. Objetivos: Este estudo objetivou caracterizar o perfil epidemiológico e clínico dos eventos toxicológicos atendidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) da região Central e Oeste de Minas Gerais e identificar associações entre características das vítimas, circunstâncias do evento e agentes tóxicos envolvidos. Metodologia: Trata-se de estudo observacional, descritivo e transversal, baseado na análise documental de registros eletrônicos do SAMU referentes ao período de janeiro a setembro de 2021, de janeiro a dezembro de 2022 e de janeiro a setembro de 2023 e 2024. A análise estatística incluiu estatística descritiva e Análise de Correspondência Múltipla (ACM). Resultados: Foram identificados 1.440 registros classificados como intoxicação, dos quais 1.009 atenderam aos critérios de inclusão, correspondendo a 946 (93,8%) casos de intoxicação e 63 (6,2%) outros eventos toxicológicos. Predominaram mulheres (56,5%), adultos de 19 a 29 anos (24,0%), seguidos daqueles de 30 a 39 anos (20,1%), intoxicações envolvendo uma única substância (48,9%), casos classificados como pouco urgentes (40,0%) e escores entre 13 e 15 na Escala de Coma de Glasgow (78,3%). Os medicamentos foram o principal agente tóxico (69,9%), estando presentes psicotrópicos em 68,3% das ocorrências envolvendo medicamentos, especialmente benzodiazepínicos (44,0%) e antidepressivos (21,6%). A ingestão excessiva autoinfligida de substâncias ou medicamentos (IEAS) e a tentativa de suicídio (TS) destacaram-se entre as principais circunstâncias registradas. A ACM evidenciou associação entre mulheres de 12 a 59 anos, uso de medicamentos, IEAS e TS, com maior proximidade entre adolescentes do sexo feminino (12 a 17 anos). Em outro modelo, homens de 18 a 34 anos apresentaram associação com o consumo de álcool e crack. Além disso, observou-se associação entre o uso de álcool, a identificação de duas ou mais substâncias e escores de 9 a 12 na Escala de Coma de Glasgow. Os resultados demonstraram que os eventos toxicológicos atendidos pelo SAMU foram fortemente influenciados pelo uso de medicamentos, especialmente psicotrópicos, e evidenciaram diferentes perfis de exposição segundo sexo, faixa etária e circunstância da ocorrência. Esses achados podem subsidiar ações de prevenção, toxicovigilância e organização da assistência no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo a articulação entre os serviços de urgência e emergência e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).