Contaminação por Metais Pesados na Bacia do rio Paraopeba: Avaliação do Potencial Genotóxico, Mutagênico e da Resistência Antimicrobiana
Poluição Ambiental; Conceito de One Health; Rompimento da Barragem; Bactérias Gram-Negativas; Poluentes da Água.
O rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho (MG), em 2019, ocasionou impactos ambientais cujos prejuízos persistem na bacia do rio Paraopeba até os dias atuais. Este estudo teve como objetivo implantar e validar o teste de micronúcleo no Laboratório de Análises Toxicológicas da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), além de avaliar os efeitos ecotoxicológicos da exposição a íons metálicos (Hg²⁺, Pb²⁺, Al³⁺ e Mn²⁺) presentes na água do rio Paraopeba, com foco na mutagenicidade e genotoxicidade. Ainda, foi investigada a diversidade de bactérias gram-negativas resistentes a gentamicina, ciprofloxacino, colistina e meropenem, antimicrobianos de importância clínica, em amostras de água da bacia. Para isso, células Caco-2 foram expostas a uma solução contendo concentrações desses metais equivalentes às médias observadas nas águas superficiais da bacia do rio Paraopeba, conforme dados do Boletim Informativo ao Cidadão do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam, 2023), e submetidas aos ensaios de micronúcleo e cometa alcalino. Para o isolamento de bactérias gram-negativas, 1000 mL de água foram coletados em cinco pontos da bacia do rio Paraopeba, sendo 20 mL de cada amostra submetidos à cultura enriquecida contendo concentrações seletivas de gentamicina, ciprofloxacino, colistina e meropenem, conforme os critérios interpretativos do Comitê Brasileiro de Testes de Sensibilidade aos Antimicrobianos (BrCAST, 2024). A mistura metálica não induziu efeitos mutagênicos nem genotóxicos significativos em células Caco-2 sob as condições experimentais empregadas. A análise microbiológica revelou reduzida diversidade de bactérias gram-negativas, marcada pela predominância de Klebsiella pneumoniae e Proteus mirabilis em detrimento de Escherichia coli. Klebsiella pneumoniae resistente aos antimicrobianos avaliados foi detectada em todos os pontos amostrados. Por outro lado, não foram identificados isolados de Proteus mirabilis resistentes à gentamicina, de Escherichia coli resistentes à colistina ou meropenem, nem isolados com fenótipo multirresistente aos quatro antimicrobianos avaliados. Esses achados sugerem que a presença de micropoluentes, incluindo metais pesados em associação com outros contaminantes ambientais, pode contribuir para a seleção de bactérias mais adaptadas e para a manutenção da resistência antimicrobiana em ambientes aquáticos. Conclui-se que a contaminação crônica por metais pesados reforça a necessidade de estratégias interdisciplinares de monitoramento ambiental, em consonância com a abordagem One Health e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), visando à proteção integrada da saúde humana, animal e ambiental.