“Modulação da atividade do citocromo P450 (3A4) por produtos de Cannabis sativa L. em ratos machos Wistar”
Canabinoides; CYP3A4; Midazolam; Interação medicamentosa; Canabidiol; Δ9-tetrahidrocanabinol; Farmacocinética.
A Cannabis sativa L. tem despertado crescente interesse científico e clínico em função do potencial terapêutico de seus canabinoides, especialmente, o canabidiol (CBD) e o Δ9-tetrahidrocanabinol (Δ9-THC). Entretanto, poucos são os estudos que avaliam o risco de interações decorrentes da associação de produtos de C. sativa com medicamentos convencionais. Tais interações podem potencializar o surgimento de efeitos adversos, como toxicidade ou redução da eficácia, principalmente, devido a modulação das atividades das enzimas metabolizadoras de fármaco do sistema citocromo P450 (CYP). Neste sentido, o presente estudo teve como objetivo avaliar os efeitos in vivo de duas formulações contendo canabinoides sobre a atividade do CYP3A4, isoforma responsável pelo metabolismo de 50% dos fármacos comercialmente disponíveis. O midazolam (MDZ) foi utilizado como substrato marcador da atividade desta enzima. Inicialmente, análises de controle de qualidade, empregando cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE), foram realizadas para determinação dos teores de CBD e Δ9-THC em um lote de produto comercial disponível na dosagem de 20 mg/mL de CBD, em três lotes da formulação de 200 mg/mL e em três lotes de um óleo medicinal de C. sativa contendo 15 mg/mL de cada canabinoide. Posteriormente, para a avaliação farmacocinética, ratos machos Wistar receberam MDZ por via oral (20 mg/kg) ou intravenosa (5 mg/kg), considerando diferentes esquemas experimentais, após a administração oral do produto comercial contendo CBD (20 mg/mL) ou do óleo medicinal contendo CBD e Δ9-THC (15 mg/mL), ambos na dose de 20 mg/kg de cada canabinoide. Amostras de sangue foram coletas em intervalos de tempo distintos para a determinação da concentração sérica do MDZ e posterior análise farmacocinética. O teor de CBD para o lote analisado do produto comercial contendo 20 mg/mL foi 11,7 ± 0,4 mg/mL. Para os três lotes da apresentação na dosagem de 200 mg/mL foram encontrados valores entre 139,1 ± 1,7 e 150,1 ± 1,5 mg/mL. Já em relação aos lotes do óleo medicinal analisados os teores de CBD e Δ9-THC variaram de 9,7 ± 0,8 a 14,2 ± 0,7 mg/mL. Os animais que receberam uma dose do MDZ concomitante com a administração das formulações dos canabinoides, apresentaram valores de picos máximos de concentração plasmática e área sob curva da concentração plasmática do MDZ versus tempo (ASC) entre 1,5 e 3,3 vezes acima daqueles do grupo controle. Em contrapartida, não se observaram diferenças estatisticamente significativas nos parâmetros farmacocinéticos (oral e intravenoso) do MDZ entre os animais dos grupos controle e daqueles que receberam os dois tratamentos com intervalo de 4 horas. Os teores de canabinoides nas amostras analisadas variaram entre 58,5% e 94,9% dos valores declarados, sugerindo ausência de um controle de qualidade adequado ou ainda, problemas de estabilidade ou farmacotécnicos. Os resultados dos estudos pré-clínicos sugerem que a coadministração de produtos de Cannabis com medicamentos convencionais metabolizados pelo CYP3A4 apresenta uma interação de fraca a moderada, entretanto, para fármacos com janela terapêutica estreita, pode existir o risco de surgimento de efeitos adversos. Entretanto, este risco pode ser minimizado adotando-se um intervalo mínimo de 4 horas entre os tratamentos. Estudos adicionais ainda são necessários para avaliar a relevância clínica deste tipo de interação. Estes achados poderão contribuir para o aprimoramento das tecnologias de produção e de controle de qualidade dos produtos de Cannabis, bem como para a prática clínica e para o desenvolvimento de políticas públicas que garantam o uso seguro e eficaz dos produtos de Cannabis sativa L. no Brasil.