O político na imagem do mundo
Heidegger. Modernidade. Machenschaft. Político. Seinsgeschichte.
A presente dissertação investiga o político na modernidade a partir do caminho de pensamento (Denkweg) de Martin Heidegger, tomando como centro de gravidade as Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) (1936–1938). A investigação defende a tese de que o político moderno só pode ser pensado na sua relação fundamental com o modo em que o homem habita o mundo como imagem (Weltbild), isto é, como o âmbito totalizante do controle e da segurança que mobiliza todos os recursos para a administração das vivências (Erlebnis). A pesquisa se situa no plano do diagnóstico ontológico elaborado por Heidegger acerca da modernidade, distinguindo-se expressamente das leituras que reduzem a meditação heideggeriana a uma prescrição política ou a uma cumplicidade com o totalitarismo. A introdução reconstrói o estado da arte sobre Heidegger e o político, posicionando a abordagem em diálogo crítico com as interpretações de Ferry e Renaut, Zimmerman, Young e Beistegui. O primeiro capítulo percorre a constituição da posição metafísica fundamental da modernidade, partindo da exegese heideggeriana da sentença de Protágoras – em que o homem grego resguarda a presença do ente sem se pôr como seu fundamento – até a transfiguração cartesiana da verdade em certeza e do homem em Subjectum, culminando na análise da Machenschaft como modo de essenciação do ser que configura o habitar maquinal através do cálculo (Berechnung), da rapidez (Schnelligkeit) e da irrupção do massificado (Aufbruch des Massenhaften). O segundo capítulo desenvolve a essência ontológica do habitar moderno em contraposição ao resguardo (Schonen), investigando, à luz de Bauen Wohnen Denken (1951) e de Die Frage nach der Technik (1953), a transfiguração do habitar em pura exploração técnica do ente na totalidade. O terceiro capítulo examina o político como administração do vazio, analisando como a mobilização total organiza o ente sob o crivo da funcionalidade, como as mundividências (Weltanschauungen) substituem a luta essencial por disputas de vivências, e como o Estado se institui como máquina de neutralização do πόλεμος. A questão-limite que atravessa toda a investigação pergunta se, no habitar maquinal, resta ainda a luta que gera e conserva o real fundando a história de um povo, ou se essa luta foi definitivamente soterrada pela neutralização técnica de todo conflito essencial.