A vegetação nativa como ativo produtivo: interferência da política ambiental e da paisagem sobre a produção agrícola no Brasil
Commodities. Biomas. LPVN. Produtividade. Agroecossistemas. Conservação ambiental.
A presente pesquisa investigou a interdependência entre a preservação da paisagem natural, a adoção de práticas agrícolas conservacionistas e o desempenho produtivo das principais commodities brasileiras (café, laranja, manga, milho, soja, trigo e cana-de-açúcar). O estudo partiu da premissa de que a cobertura vegetal nativa e o manejo sustentável influenciam diretamente o rendimento agrícola. Sendo a hipóteses: i) a alteração realizada na LPVN implicou em mudanças de preservação da paisagem natural; ii) a maior disponibilidade de cobertura vegetal natural na paisagem leva à maiores rendimentos das culturas agrícolas perenes e anuais; iii) a maior frequência de ocorrência de práticas agrícolas conservacionistas incrementa o rendimento nas lavouras perenes e anuais. A metodologia baseou-se em um fluxo de ciência de dados que integrou indicadores de produção municipal (IBGE/SIDRA), dados de cobertura do solo (MapBiomas) e registros de áreas protegidas (WDPA) para o intervalo entre 2012 e 2024. Para assegurar o rigor analítico, aplicou-se um filtro de representatividade, selecionando apenas municípios onde cada cultura ocupava, no mínimo, 20% da área agrícola total. As hipóteses foram testadas por meio de testes t de Student para amostras pareadas, Análise de Componentes Principais (PCA) e Modelos Lineares Generalizados (GLM) de regressão múltipla. Os resultados confirmaram a primeira hipótese, revelando que a consolidação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN) coexistiu com uma redução da cobertura vegetal nativa chegando até a 8% simultaneamente obtivemos resultado de áreas plantadas que chegou a se expandir até 42%. A segunda hipótese foi refutada, pois a cobertura vegetal não exerceu influência positiva sobre rendimento médio, sendo este conduzido primordialmente por variáveis climáticas, como temperatura e pluviosidade, e geográficas, como a latitude e o bioma de inserção. Quanto à terceira hipótese, embora a PCA tenha identificado a relevância de práticas como controle de voçorocas e proteção de nascentes em somente uma cultura (manga), o rendimento médio ainda é ditado por fatores ambientais e tecnológicos. Conclui-se que o agronegócio nacional apresenta uma eficiência vulnerável, onde o evidente salto produtivo mascara a perda de resiliência ambiental. Se por um lado, a conservação da paisagem não é o principal fator a explicar o rendimento médio das lavouras, por outro, as variáveis que comumente explicaram, como temperatura e umidade, são fortemente afetadas pela manutenção desta cobertura vegetal. Assim, a conservação da paisagem precisa ser integrada à estratégia agronômica de produção como uma garantia de segurança ecossistêmica contra a instabilidade climática que ameaça o futuro do setor