A vegetação nativa como ativo produtivo: interferências da política ambiental e da paisagem sobre a cafeicultura em Minas Gerais
Código Florestal. Café. Serviços Ecossistêmicos. Áreas Conservadas. Ciências de Dados
A agricultura brasileira enfrenta o desafio contemporâneo de conciliar a expansão produtiva com a conservação da biodiversidade. O presente estudo investigou possíveis efeitos da legislação ambiental, com foco na Lei de Proteção da Vegetação Nativa (Lei 12.651/2012, LPVN), sobre a dinâmica da paisagem e os indicadores produtivos da cultura do café no estado de Minas Gerais, compreendendo o período de 2010 a 2024. O objetivo central foi avaliar se a proporção de cobertura vegetal natural nos principais municípios produtores e a adoção de práticas agrícolas conservacionistas influenciam no rendimento das lavouras. Para tanto, testou-se as hipóteses de que a alteração realizada na LPVN implicou em melhorias de preservação da paisagem natural e de produtividade na lavoura cafeeira, de que a maior disponibilidade de cobertura vegetal natural na paisagem leva à maiores rendimentos e de que práticas agrícolas conservacionistas incrementam o rendimento nesta lavoura. A metodologia consistiu na estruturação de um banco de dados geoespacial integrado via rotinas computacionais (pipeline ETL em Python), unificando dados da Produção Agrícola Municipal (IBGE) e do MapBiomas. A análise estatística empregou testes T pareados, Análise de Componentes Principais (PCA) e Modelos Lineares Generalizados (GLM). Os resultados mostram um cenário de intensificação agrícola, nos últimos 10 anos, com o aumento de 10% no rendimento médio, de 7% na produção total, mas uma redução de 2,7% na cobertura vegetal natural dos principais municípios produtores de café. A cobertura natural exerce maior influência sobre a produtividade do que a adoção de práticas de manejo conservacionista, ilustrando relação consistente nos dois principais biomas do estado de MG, sendo a produtividade desta lavoura no Cerrado mineiro, superando a da Mata Atlântica em cerca de 250kg/ha em variáveis níveis de cobertura natural da paisagem. A vegetação nativa é um significativo preditor da produtividade, apontando ganho médio de 668 kg/ha no rendimento do café para cada incremento proporcional na cobertura natural, tanto no Cerrado quanto na Mata Atlântica. A relação entre a produtividade cafeeira e a cobertura natural da paisagem não é uma novidade científica. Contudo, o banco de dados aqui obtido por meio das rotinas computacionais empregadas, permitem um reforço de alta confiança sobre a importância da cobertura vegetal natural e, portanto, da efetividade da LPVN para esta lavoura. Com os resultados deste estudo, pode-se afirmar que a importância da LPVN vai muito além da ótica da conservação, ela é uma estratégia nacional para a sustentabilidade produtiva da cafeicultura brasileira e para o papel internacional do Brasil, já que é líder absoluto em produção e exportação deste produto.