ESTADO DE EXCEÇÃO E POLÍTICAS DE MORTE:
NARRATIVAS DE “HIATO” E “ROLÊ - HISTÓRIA DOS ROLEZINHOS” DE VLADIMIR SEIXAS
Cinema-documentário. Memória. Estado de Exceção. Políticas de Morte.
Esta pesquisa tem como objetivo analisar as narrativas dos documentários “Hiato” (2008) e “Rolê – História dos Rolezinhos” (2021), de Vladimir Seixas, que abordam a ocupação de shoppings em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Partimos da percepção de que o documentário opera com traços do real, mas não se limita a ele: sua linguagem é atravessada por escolhas estéticas, políticas e narrativas que constituem uma interpretação do mundo, estabelecendo assim, como método, a análise pragmática da narrativa (Motta, 2013). O objetivo geral desta dissertação foi identificar, nas narrativas fílmicas, evidências do estado de exceção como ferramenta política para a produção da morte (Agamben, 2004; Mbembe, 2016). A justificativa se encontra na urgência de se questionar estruturas de poder que mantém ao longo da história a distribuição da vida em regimes desiguais entre grupos privilegiados e grupos em regimes de exclusão. Nesta pesquisa, procuramos olhar para a periferia como território onde o dispositivo político da exceção se manifesta como direito de matar, levando em consideração as narrativas das personagens-testemunhas e as imagens expostas pelos documentários. Por que ir ao shopping é permitido para uns e negado a outros? O cinema-documentário convida à reflexão sobre a distribuição do visível e do dizível e suas implicações sobre o corpo e a memória. Propusemos uma memória inscrita no corpo que resiste; uma memória na pele que dá a ver, ainda que por traços fragmentados, os rastros do passado que resta. “Hiato” e “Rolê – História dos Rolezinhos” se mostraram suporte, ainda que provisório, das memórias dos excluídos, atuando, ambas as produções, como contranarrativas frente ao poder hegemônico, refletindo, na imagem do favelado as contradições de uma sociedade fundamentada na exclusão racial.