DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DE MULHERES NA SAÚDE MENTAL COMO DISPOSITIVOS DE MANUTENÇÃO DA NORMA DE GÊNERO MANICOLONIAL
Diagnóstico e tratamento em saúde mental. Mulheres. Feminismo decolonial. Manicolonialidade.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os estereótipos de gênero podem atravessar profissionais da saúde e exercer influência tanto na maior taxa de diagnósticos de depressão e ansiedade quanto na maior prescrição de psicotrópicos para mulheres (OMS, 2002). Nesse sentido, é necessário considerar, desnaturalizar e politizar a prevalência de mulheres nas estatísticas de transtorno mental (OMS, 2002; 2025). Também é importante levar em conta que o consumo de drogas psiquiátricas não se dá de maneira análoga entre as mulheres: existe um perfil prevalente - mulheres negras, casadas, pobres e usuárias de drogas ilícitas (Amarante & Freitas, 2015), assim como também há diferenças diagnósticas entre mulheres brancas, pardas e pretas (Cunha, 1998). Segundo Caponi, Mazon e Bianchi (2023), os estudos de gênero no campo da saúde mental apresentam lacunas significativas. Muitos deles se apoiam em uma perspectiva biologicista, anulando os papéis sociais de gênero como propulsores do adoecimento, o que reforça padrões históricos de associação da loucura às mulheres com base no funcionamento de seu corpo, especialmente no que diz respeito ao útero, aos ovários e à menstruação (Rohden, 2001). Na contramão da patologização dos corpos das mulheres, esta pesquisa tem como intenção investigar como algumas práticas em saúde mental (diagnóstico e tratamento, especialmente) podem ser operadas como ferramentas de controle social e de manutenção da norma de gênero manicolonial (Gomes, 2019; David, Vicentin & Schucman, 2024). Mas não só, também tem como interesse pensar como as interlocutoras habitam seus próprios sofrimentos e criam, consigo mesmas ou em coletivos, possibilidades de agência (Mahmood, 2019). Como caminho metodológico, aposta-se no encontro com mulheres usuárias de serviços públicos de saúde mental da cidade de Barbacena/MG, mediado por uma entrevista semiestruturada. Considera-se benéfico que o diagnóstico e o tratamento, enquanto práticas da ciência ocidental, sejam problematizados à luz das perspectivas decoloniais e feministas, a fim de questionar as estruturas hegemônicas de saber, ser e poder, e a maneira como estas impactam a vivência das mulheres. Por fim, cumpre destacar que a crítica levantada neste trabalho não tem como intenção invalidar o diagnóstico nem o tratamento via medicação, tampouco visa negar a realidade do sofrimento mental. No entanto, opõe-se a essa prática quando pensada de maneira universal, individualizante, colonial e patriarcal.