A FUNÇÃO DO OBJETO NA ESTRUTURAÇÃO DA SUBJETIVIDADE EM FREUD: interseções entre o Projeto de uma Psicologia e a metapsicologia
objeto; metapsicologia; desamparo; salto epistemológico; dialética.
Esta dissertação investiga o desenvolvimento do conceito de objeto no interior da obra freudiana. Buscamos ilustrar algumas interseções entre o Projeto para uma psicologia e a Metapsicologia, fundamentada por uma leitura e uma análise dialética da obra freudiana, no que concerne aos determinantes do conceito de objeto. Defendemos, com base nessa metodologia, que há um movimento dialético na construção teórica de Freud e no seu modo de determinação conceitual marcado por saltos epistemológicos que suspendem e retomam pressupostos fundamentais. Utilizamos a expressão salto epistemológico para aludir ao movimento dialético de fundação e transformação da teoria psicanalítica, a partir de seu interior e direcionada para a prática. No primeiro capítulo será desenvolvida a passagem da teoria do trauma para a teoria da fantasia, bem como serão tencionados os pressupostos epistemológicos fundamentais da teoria e da prática psicanalítica, com vistas a compreender o salto epistemológico dado por Freud com a descoberta da sexualidade e do inconsciente. Neste capítulo também será desenvolvido o método materialista-especulativo freudiano de determinação dos conceitos. No segundo capítulo aventamos que, na metapsicologia, ocorre um retorno sintomático de elementos materialistas presentes no Projeto para uma psicologia, como as experiências de dor e de satisfação e a noção de desamparo. A metapsicologia reconfigura o conceito de objeto, articulando-o ao narcisismo e à identificação, e revela sua função estruturante na subjetividade. Concluímos, por meio da análise de um chiste freudiano, localizado em Luto e Melancolia, que a metapsicologia rearticula os pressupostos fundamentais da determinação conceitual freudiana, recuperando o sentido do desamparo das relações de objeto e transformando o conceito de objeto a partir de sua pressuposição. Conclui-se que o objeto opera em três registros metapsicológicos: objeto total (perceptivo, ligado ao trauma), objeto sexual (fantasístico, ligado à realidade psíquica) e objeto narcísico (identificatório, ligado à constituição do Eu). Esses registros, longe de serem lineares, coexistem e revelam a negatividade inerente à experiência subjetiva, ancorada no desamparo estrutural.